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Zika e Microcefalia: mitos entre "relação" e "causalidade".

por Volátil, em 07.02.16

Até há um mês ninguém sabia da existência de um vírus chamado Zika. Na altura do aparecimento do vírus no Brasil disse que um vírus com este nome nunca ia ser levado a sério, parece mais um nome de um palhaço que de um vírus! Outros arbovirus (virus que se propagam por artrópodes, normalmente mosquitos, ARthropod BOrne VIRUSES) da família do Zika têm nomes a sério. Dengue, Flavivírus (febre amarela), Catolotolo/Chikungunya (surto recente em Angola), vírus da febre do Nilo, vírus da encefatite japonesa.

O Zika não teria nada de especial à partida, nem com este nome que vem do Vale Zika no Uganda onde o vírus foi identificado pela primeira vez em 1947. As mortes por Zika são raras e o tratamento é sintomático. Existem também casos raros de paralisia chamado síndrome de Guillain-Barré. Tratar a febre e as dores musculares. Paracetamol. O Zika, à semelhança da dengue, podem provocar algumas complicações hemorrágicas e por isso a Aspirina e outros salicilatos devem ser evitados.

Estamos a falar mais do Zika por causa de uma suspeita de relação com a microcefalia. Este recente problema, no que concerne à enxurrada informativa tem origem numa confusão comum entre dois termos, "relação" e "causalidade".

 

São alegações como "The bigger health threat though is believed to be in pregnancy, to the unborn child", "É o maior medo em relação ao surto. A ligação entre o zika vírus e a má-formação ainda é uma forte suspeita" que levam depois a "ONU defende descriminalização do aborto em meio à epidemia de zika". Artigos recentes registam um aumento de 10,2% de casos de microcefalia no Brasil. "Houve um pico na semana 49 (entre 6 e 12 de Dezembro) e estamos observando uma redução, inclusive por causa da actualização dos dados (aumento de casos descartados)".

Assim, se estivermos mais atentos quase em todo o lado estão escritas duas palavras "relação" e "suspeita". Contudo, aquilo que se entende é semelhante ao que se perceberia se lá estivesse escrito "causalidade". Na verdade, com olhar pragmático para os números, não temos uma relação de causalidade, ou seja, se estivesse escrito em qualquer um destes artigos que o Zika provoca microcefalia isso seria uma mentira ou pelo menos uma adivinhação.

O que sabemos hoje é que durante a epidemia de Zika apareceu um "ligeiro" aumento de casos de microcefalia, que pode ser várias origens para além da suposta infecção por Zika. Existe também uma relação com os arbovirus e problemas neurológicos, ainda que raros, alguns provocam encefalites, por exemplo, e não seria estranho se realmente se viesse a estabelecer uma causalidade entre microcefalia e infecção por Zika. Mas, apesar das "fortes suspeitas" não existe, hoje, uma ligação directa nem uma causalidade estabelecida. 

 

Para dar um exemplo de relação e causalidade lembro-me de uma curiosidade que me apresentaram numa cadeira de estatística. Aparentemente existe uma menor incidência de HIV em indivíduos circuncidados do que não circuncidados. Foi mesmo verificada uma significância estatística nos números. Contudo, não podemos dizer que a circuncisão previne infecção por HIV (causalidade).
Quanto ao Zika o que temos é uma suspeita de relação. Ainda que muito forte. Muito longe de causalidade. 

 

Então não se deveria estar a falar de tanto do Zika? E a OMS? E a ONU?
Estas suspeitas são graves e as instituições estão a fazer o seu papel de proteger a população. Se uma ligação efectiva se viesse a estabelecer mais tarde e estas instituições não tivessem feito nada para a travar... o escândalo que seria. Por isso, dramatismo jornalístico à parte, parece que se está a fazer tudo o que se pode. 

Talvez esta epidemia, a somar à do Ebola, chame mais a tenção para a importância do estudo destas doenças e do investimento na prevenção e no desenvolvimento de vacinação. Para já o que se pode fazer para prevenção de Zika é o mesmo que se deveria fazer para qualquer outro arbovirus, prevenir a propagação do mosquito (Prevenção e combate: Dengue, Chikungunya e Zika).

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publicado às 12:51