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A miúda do autocarro.

por Volátil, em 02.07.14

Durante os primeiros anos do primeiro curso ia sempre de autocarro para a faculdade. Sensivelmente na terceira ou quarta fila a contar do fim, ia sempre a mesma rapariga. Eu, quase sempre de pé, procurava aquela cara que me era tão desconhecida e familiar, "unheimliche" como diria Freud. Sei que reparou em mim, mais que não fosse por ter de impor uma direcção do olhar que não cobrisse o seu cabelo preto e liso e os óculos de massa quase tão pretos como os cabelos. 

Entretinha-me a pensar em qual seria o seu nome, o que estudava (era arquitectura, só quem estuda arquitectura anda com aquele tubo preto de plástico a tiracolo!), porque às vezes ria a olhar pela janela do autocarro, que música tinha no leitor de mp3. A distancia entre casa e faculdade, parecia tão mais curta do que agora. 

Nunca mais a voltei a ver. Nunca lhe disse olá. Gostava de lhe ter dito olá. Tantas vezes tentei. Nunca consegui. Agora tenho de suportar cada metro que vai de minha casa à velha faculdade, sem atalhos, sem a miúda do autocarro.

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publicado às 22:14