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A Ética, a Morte e a Medicina.

por Volátil, em 07.08.14

Não é raro ouvir dizer que conhecimento é poder. Pode servir para curar ou para matar. A mais conhecida equação do mundo, E=m*c^2, é uma faca de dois gumes. Com ela veio uma nova compreensão da massa e da energia. Novos métodos de imagiologia medica. Novas fontes de energia. Novas formas de transformar grandes cidades numa nuvem de poeira e fumo em forma de cogumelo, em segundos.

O Juramento de Hipócrates, pode ler-se "Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém." Muitas vezes na busca por conhecimento cientifico, particularmente o conhecimento farmacológico, esbarra-se com esta linha. 

 

O Ébola está a matar às centenas na África Ocidental. O Ébola não tem cura, mas tem esperança.

Um pequeno laboratório biofarmacêutico americano chamado Mapp tem vindo a desenvolver uma combinação de anticorpos monoclonais produzido a partir das folhas da planta do tabaco. Até ao momento em fase experimental, em macacos Rhesus, tem apresentado uma taxa de eficácia de 40%. Olhando para um vírus que tem uma taxa de mortalidade de 90%, a pergunta é: o que temos a perder em experimentar directamente este "soro" a que chamaram ZMapp (pode ler-se aqui um estudo semelhante) já em humanos?

 

Dois médicos americanos, infectados por Ébola enquanto trabalhavam no combate à epidemia na Líbia começaram a ser tratados com ZMapp e aparentemente com bons resultados, os quais são adjectivados pela impensa de "miraculosos". A FDA autorizou um "bypass" de vários anos de estudo e aprovou esta administração.

As experiência em humanos são inexistentes, espera-se, desde o Tratado de Nuremberga, depois da 2ª Grande Guerra, que se veio insurgir contra o horror levado a cabo pelos médicos nazis, colocando limites éticos fortes às experiência cientificas que envolvem humanos. Contudo, sensivelmente no mesmo período, como vem na história da quimioterapia, estavam a ser administradas novas moléculas a doentes com leucemia avançada e sem tratamento possível na altura, particularmente crianças. Foi assim que nasceu a quimioterapia e grande parte dos principais fármacos ainda hoje utilizados no combate a diferentes tipos de cancro.

Este "atalho" que está a ser feito com o ZMapp não é pacifico. Pode estar a funcionar em duas pessoas mas também pode vir a matar muitas outras caso a administração seja alargada. E mesmo assumindo que, por pura sorte, tudo corre bem e estamos perante uma cura ou tratamento efectivo para o Ébola, como se vai administrar um fármaco destes às centenas e centenas de africanos infectados quando a sua produção é tão limitada? 

 

Longe vão os tempos em que ao perguntarem a Jonas Salk, responsável pela vacina contra a poliomielite, porque não patenteava o resultado do seu trabalho, este responde prontamente: "A quem pertence a minha vacina? Ao Povo! Não se pode patentear o sol, pois não?"

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publicado às 21:46