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A beleza e a doença.

por Volátil, em 20.11.14

Cada vez se vive mais tempo. A esperança média de vida em Portugal anda nos 80 anos. E por vivermos mais anos e termos melhor medicina e melhores condições de vida (em média!) aquilo que nos mata hoje não é o mesmo que nos matava há 100 anos (ver isto). Por isso, temos neste momento duas grandes causa de morte: o cancro e as doenças cardiovasculares. 

Todos os dias são escritas noticias da vitória e da derrota do cancro. Felizmente temos cada vez mais doentes a vencer o cancro e isso é uma vitória não só das ciências médicas mas fundamentalmente do próprio doente, da forma como gera força em si próprio, se informa sobre o seu estado e ganha animo para conseguir destruir a parte de si que o quer matar. 

Tenho uma enorme admiração por esta força, quase mágica, que ocupa e perdura no espaço que as células cancerosas deixaram.

Apareceram notícias da cura da leucemia da Sofia Lisboa, ex-vocalista dos Silence 4, que lançou um livro onde relata a sua complicada vitória. A medicação extremamente agressiva utilizada neste nesta forma de cancro deixou a Sofia completamente irreconhecível.

Contudo, sendo fundamental realçar o relato de todo este esforço e coragem que foram os pilares do sucesso (que há décadas seria impossível), as redes sociais ficaram inundadas de uma opinião tão básica, elementar e, na minha opinião cruel, como "era tão bonita e ficou irreconhecivelmente feia, um monstro".

Pois a Sofia, para além de ser conhecida publicamente, tem o estatuto de "pessoa bonita". É a isto que se dá ênfase: a pessoa bonita que venceu o cancro... e voltou a ser bonita. 

 

E as pessoas feias que têm cancro? E as pessoas feias que vencem o cancro?

 

Reynaldo Gianecchini foi diagnosticado com um linfoma não-Hodgkin. Contudo a atenção dos comentários a esta noticia não se focam na força pessoal e na vontade de viver. Todas as opiniões, pessoas e noticiosas, estão centradas num vão e tonto "que pena, é tão bonito".

É assim que a opinião pública de movimenta.

A veneração do bonito que disperça do principal e daquilo que é verdadeiramente admirável. 

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Isto merece uma reflexão e para ajudar recomendo um livro, O Imperador de Todos os Males: Uma biografia do Cancro onde o autor, Siddhartha Mukherjee, médico oncologista americano, relata a história do cancro ao longo dos anos desde que ele foi pela primeira vez avistado até aos dias de hoje, como de uma personagem tratasse. 

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publicado às 21:45


1 comentário

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De Sofia a 20.11.2014 às 22:25

É verdade. Embora ache que o Reynaldo, da forma como se mostrou durante todo o seu tratamento, contribuiu para que as pessoas percebessem que a beleza, sem a força interior, não chega.

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