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Todos os homens são maricas quando estão com gripe.

por Volátil, em 13.08.15

Os homens têm uma relação complicada com a doença. Ou são hipocondríacos caguinchas ou negacionistas inveterados. Se estava estabelecido que as mulheres tinham um pain threshold superior ao dos homens, o que até seria mais ou menos agradável à lógica, essa ideia tem vindo a ser abandonada por vários estudo que apresentam uma tolerância à dor semelhante entre homens e mulheres. Porem, com base nos doentes com que me cruzo diariamente - mulheres preocupadas mas pragmáticas e homens negacionistas mas emocionais. Na doença. 
António Lobo Antunes, médico psiquiatra para além de escritor, é autor de um poema de que me recordo muitas vezes e que é a caricatura perfeita de um homem doente com gripe.

 

Terço na mão
Uma botija Chá de limão
Zaragatoas
Vinho com mel
Três aspirinas
Creme na pele
Dói-me a garganta
Chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer
Mede-me a febre
Olha-me a goela
Cala os miúdos
Fecha a janela
Não quero canja
Nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes
Não vales nada
Se tu sonhasses
Como me sinto
Já vejo a morte
Nunca te minto
Já vejo o inferno
Chamas diabos
Anjos estranhos
Cornos e rabos
Tigres sem listas
Bodes de tranças
Choros de corujas
Risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes
Que foi aquilo
Não é a chuva
No meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes
Fica comigo
Não é o vento
A cirandar
Nem são as vozes
Que vêm do mar
Não é o pingo
De uma torneira
Põe-me a santinha
À cabeceira
Compõe-me a colcha
Fala ao prior
Pousa o Jesus
No cobertor
Chama o doutor
Passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes
Nem dás por nada
Faz-me tisanas
E pão-de-ló
Não te levantes
Que fico só
Aqui sozinho
A apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes
Que vou morrer.
-

António Lobo Antunes

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publicado às 22:19