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Sobre jogar à bola, que futebol é outra coisa.

por Volátil, em 12.02.16

Na aldeia onde nasci não se jogava futebol. Todos jogavam à bola. Saía de manhã de casa e chegava à noite com os joelhos esfolados e terra na camisola. Já a minha mãe tinha gritado o meu primeiro e segundo nome de seguida porque eram horas de jantar e eu era sempre a mesma coisa que nunca estava em casa a horas e ainda por cima quando chegava era todo sujo e, às vezes, rasgado. A minha tia-avó e segunda-mãe, velhinha, ria escondida atrás da minha mãe enquanto ela ralhava comigo e me mandava para a banheira, "medo tem, mas vergonha não tem nenhuma" e ria de novo.

Isto era jogar à bola. Juntar duas pedras a fazer baliza na rua mais larga da aldeia. Ver se havia possibilidade partir alguma coisa, com um remate mais entusiasmado. Arranjar uma bola. Ou, às vezes, qualquer coisa que desse para rebolar com pontapés. Esperar pelo número mínimo de atletas (às vezes os atletas não apareciam logo porque estavam de castigo a fazer os trabalhos de casa). Era o jogo de bola. Não tinha tempo limite, era enquanto houvesse sol. Não tinha muitas regras, não valia chutos de força porque podiam aleijar ou partir algum vidro, o que era muito pior. 

Futebol era na televisão. Tinha 22 jogadores. Tinha árbitros, essas entidades estranhas ao jogo de bola. Todos calçavam chuteiras. Havia um guarda-redes com luvas e tudo (no jogo de bola ninguém estava sempre à baliza sem redes). O futebol era uma coisa que acontecia lá longe longe e só a televisão dava para ver.

Na aldeia quase todos eram do Benfica. O café central enchia em dias de jogo grande. O futebol acontecia só ali. Lá fora, no largo da igreja, era a zona reserva ao jogo de bola, ao abrigo de um gigante negrilho - que já secou e foi cortado.

 

Hoje, algumas décadas depois, a bola quase desapareceu. A bola quase desapareceu da rua. A bola quase desapareceu do próprio futebol. Já não é só na televisão e no relvado. Acontece nos jornais e nas redes sociais. Acontece nos boletins do Placard. Na televisão não existe só o jogo propriamente dito mas há uma boa dezena de programas de comentário exaustivo, debate e insultos. Nas caixas de comentários a notícias escrevem-se linhas, linhas e linhas, textos gigantes e raivosos - aparecem como cogumelos, venenosos. Discutem-se contratos. Falam-se de milhões com a leveza de quem fala em rebuçados de 1 escudo (que o café da aldeia tinha sempre, mas só para os jogadores da bola). Treinadores e jogadores passam de uma equipa para o seu adversário com a maior naturalidade do mundo - coisa impensável nas ruas - perdão, campo de bola - da aldeia.

 

Tenho saudades da aldeia. Não da que lá está hoje mas daquela que lá deixei. Tenho saudades de jogar à bola. Mudou muito. Só uma coisa não muda: a aldeia quer que o Benfica seja campeão! #SejaOndeFor

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publicado às 12:16