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Se não experimentar não sei se gosto?

por Volátil, em 16.12.15

Milhões de anos de evolução para chegar ao cérebro humanos. Dezenas de milhares de anos de pressão selectiva social para esculpir o córtex pré-frontal. Andou o Homo sapiens a sofrer horrores para chegar a sapiens sapiens sapiens para ter dentro da cabeça uma máquina que, sem sair do lugar, que permitisse a analisar, observar, reflectir e antecipar situações para eu agora ter de levar com essa do ter que experimentar primeiro?

À partida isto pode parecer anti-empirista e anti-cientifico. Visto que o método cientifico depois do trabalho de elaboração de hipóteses leva à experimentação e testes dessas mesmas hipóteses confrontando o paradigma vigente.
 
Não é disto que falo. Falo das nos pequeninas tomadas de decisão. Como isto. Bebo aquilo. Não me cheira bem. Se calhar não. Isto é o processo por que passa aquele, por linguagem técnica, se designa "um esquisitinho". Mas é-o com legitimidade, embora seja tecnicamente um "chato de merda". Há muito que podemos simular dentro da nossa cabeça. que levou tantos anos de evolução a construir - com alguma falência estatística - pode servir para nos livrar das más experiências. Mas não nos permite - infelizmente - adivinhar. 

O medo.
Ligado a tudo isto está sempre o medo. O nosso próprio medo, o medo de nós, e o medo que vejam que temos medo. São dois medos em que é difícil decidir qual o que comanda a acção. O medo serve como mecanismo de alarme para antecipar a dor do corpo e algumas da almas. 

Por vezes, na dúvida, temos de ir contra esses medos e riscar contra o calculo que o nosso cortes pré-frontal nos apresenta. É como uma aposta é que podemos vir a ser geniais ou burros. 

Contra o temos, por exemplo, o absinto. 

E lembrei-me disto:

 

“a verdade é que passei a vida a fugir, de cidade em cidade, com um
sussurro cortante nos lábios.
e atravessei cidades e ruas sem nome, dentro de mim - rasgando paisagens,
sulcando mares, devorando imagens.
o absinto, esse álcool que me permitiu medir o tempo no movimento dos
astros
e vi a vida como um barco à deriva. vi esse barco tentar regressar ao porto
- mas os portos são olhos enormes que vigiam os oceanos. servem para
levarmos o corpo até um deles e morrer.
[...]
regresso nunca foi possível.
o verdadeiro fugitivo não regressa, não sabe regressar, reduz os continentes
a distâncias mentais.
aprende a falar dos outros - e, por cima dele, as constelações vão esboçando
o tormento destino dos homens.
[...]
não semearei o meu desgosto, por onde passar.
nem as minhas traições” 

Al-Berto, O Medo

 

Já não sei onde ia.
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publicado às 20:28