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Rosa, garrafa de vinho, caixa de preservativos e um santo decapitado.

por Volátil, em 13.02.16

Na passadeira da caixa do supermercado. Uma rosa, uma garrafa de vinho e uma caixa de preservativos. Imagino que seja esta a ordem pela qual vão ser oferecidos.

A rosa era vermelha e estava embrulhada numa espécie de cartucho de plástico transparente apertado no caule com uma fita vermelha um pequeno coração de papel, vermelho como vem nos manuais, pendurado no laço com uma inscrição qualquer. O vinho era alentejano. Pêra Doce 2014. Estava em promoção ao lado do Mula Velha e do Piteira. Os preservativos era da Control Natural, uma caixa de 6. É por causa destas coisas que agora têm uma coluna de preservativos na secção do vinho. Chama-se product placement.

Tudo aquilo cheirava a frete, a "tem que ser vamos lá despachar isto a ver se abrimos os preservativos aos menos, vá",  a "antes um cliché mal amanhado que 1 mês de trombas e a seco". Parece mau? Descrito assim talvez. Se tudo o que se espera for aquele cliché, então... bullseye! Não há vergonha nisto se faz alguém feliz, de alguma forma.

 

Mas de onde vem isto? De onde é que vem a tradição que, empurrada pela turbulenta vaga consumista, se repete neste dia todos os anos?
As difusas e incertas raízes desta celebração remontam ao período romano. O imperador Claudius II (220 aC), o cruel, abriu uma perseguição à religião católica que estava a despontar. Eram perseguidos sobretudo os padres que faziam casamentos de soldados. Claudius acreditava que soldados casados e com família eram fracos porque pensavam primeiro nos que deixavam com a sua morte, ao passo que soldados solteiros não tinham nada a perder e por isso seriam mais eficazes e destemidos. Valentim foi uma padre prosseguido, condenado à morte e decapitado num dia 14 de Fevereiro, por unir em matrimónio jovens soldados e as suas amadas.

Aparentemente, o nome Valentim era muito comum e existem registos de vários padres com este nome tornando difícil a confirmação da lenda.

 

Outra origem, quanto a mim bem mais interessante, é pagã. O Festival romano de Lupercalia. Os jovens romanos, nus e bêbados, sacrificavam uma cabra e um cão e de seguida batiam, com a pele dos animais mortos, nas moças que por ali se juntavam. Acreditavam que serem tocadas desta forma iria contribuir para a sua fertilidade e, assim sendo, ficavam todas em filinha para levar com a pele do animal...

lupercalia.jpg

Mas há mais! Ao ler sobre isto descobri que os romanos, loucos, como já lhes chamava o Obélix, faziam uma espécie de lotaria do amor, um blind date, uma espécie de Tinder primitivo, durante o Lupercalia. 

O que acontecia era o seguinte, havia um pote com os nomes das mulheres e os jovens mancebos retiravam um nome à sorte. Seriam então um casal até ao final do festival ou mesmo depois se realmente estivessem felizes e houvessem ultrapassado as provações de uma celebração pagã numa cultura ainda polígama. Mais tarde, com o crescimento do cristianismo, o papa Gelásio l, no século V, acaba por instaurar o dia de S. Valentim como uma celebração religiosa na tentativa de expurgar as manifestações pagãs. Mesmo assim, não impediu que continuassem a celebrar o amor, mas de formas talvez menos exuberantes e lascivas.

Como as reverências a São Valentim são confusas e como é difícil definir exactamente de qual Valentim se fala, o Vaticano acabou por retirar a data do calendário religioso em 1969 (curiosa data...).

Contudo, num artigo recente o Bispo de Inglaterra e Gales aconselha os solteiros a rezar a São Valentim. Com a seguinte fórmula, que deverá ser recitada durante 9 dias:

(fica aqui a copia para o caro leitor ou leitora, just in case, boa sorte!)

Loving Father,
You know that the deepest desire of my heart is to meet someone that I can share my life with.
I trust in your loving plan for me and ask that I might meet soon the person that you have prepared for me.
Through the power of your Holy Spirit, open my heart and mind so that I recognise my soulmate.
Remove any obstacles that may be in the way of this happy encounter,
So that I might find a new sense of wholeness, joy and peace.
Give me the grace too, to know and accept, if you have another plan for my life.
I surrender my past, present and future into the tender heart of your Son, Jesus,
Confident that my prayer will be heard and answered.
AMEN.
Sacred Heart of Jesus, I place all my trust in you.
St Valentine, pray for me.

E agora deixo a minha impressão deste dia:

Minha querida, se estás a ler isto. Estou preso num comboio por causa das cheias. As linhas estão completamente alagadas. Vou ter de voltar para trás. Mas estou bem e com saudades. Na verdade posso pegar no telefone e falar contigo agora mesmo. Mas tenho o direito de ser ridículo, uma vez por outra, sem julgamento, como o rapaz do supermercado.

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publicado às 23:47