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Post em que recomendo um livro sobre cancro mas primeiro teço algumas considerações.

por Volátil, em 09.01.16

Foi diagnosticado cancro da mama a uma bela e jovem actriz. Depois de várias capas do Correio da Manhã, que quase diariamente explorou, de forma execrável, a imagem da actriz chegou o vídeo da própria a rapar o cabelo.
Há várias maneiras de olhar para isto. O cancro é terrível porque é desconhecido mas graças à ciência e à medicina (e pouco a deus), cada vez menos. Temos medo do que nos foge ao entendimento - é uma coisa mais ou menos estabelecida.
Aparentemente, enquanto estive desligado da internet aconteceram piadas sobre cancro e sobre à actriz. Não preciso de ser o bruxo de Fafe para adivinhar quem terá sido e qual o seu teor. A história dos limites do humor já me aborrece. Quando este se baseia na ignorância e no insulto é, para mim, apenas prova falta de carácter, humor reles e fraca criatividade. 
Quando à clássica questão da liberdade de expressão e que podem-se levantar questões tais como o racismo/xenofobias serem liberdades de expressão - claro que não, mas a discussão nunca terá fim. É importante que a liberdade de expressão continue a existir... só assim saberemos onde estão os palermas e como podemos evitá-los. Eu, como fiz até aqui, opto por nem sequer mencionar tais criaturas. Dar-lhes palco é um apoio ao seu ego doente que vive apenas disto.


Percebo que pessoas conhecidas com doenças cancerígenas apareçam. E que pela sua imagem e história consigam transmitir, de alguma forma, um bocadinho de conforto aos doentes e familiares anónimos.
À opinião pública importa lembrar que se trata pessoa com uma doença, não de entretenimento. Mas sobretudo, que não é por se tratar de uma mulher jovem e bonita que merece mais a felicidade e a cura. Entendo que choque mais. Choca mais ainda quando se trata de crianças. Não me recordo de um sitio tão mau como a ala pediátrica do IPO de Coimbra.


Cada vez a informação é mais importante. Os rastreios e os alertas para estes problemas serem detectados o mais cedo possível. Se tudo isto junto ajudar tanto a Sofia Ribeiro como todos os que lutam contra o cancro de vários tipos, fico contente e apoio esta exposição e entendo-a apenas como demonstração força e coragem. A luta é a mesma. A luta é de todos. Mas só a percebe realmente quem vive e convive de perto com a doença.



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Há uns tempos li um livro fantástico sobre cancro. O Imperador de Todos os Males pelo oncologistas e investigador norte-americano de origem indiana Siddhartha Mukherjee. O livro é obviamente de teor cientifico mas suficientemente acessível para ser lido por quem não tem formação especifica na área. 

Gosto de livros de divulgação cientifica, mas muitos deles, a certo ponto, têm um aspecto de textbook que é, para quem procura estar entretido durante umas horas e aprender ou relembrar alguma coisa, um verdadeiro horror.
Existem, do meu conhecimento, três autores que conseguiram fazer isto Siddhartha Mukherjee, Bill Bryson (Breve História de Quase Tudo) e Richard Feynman ("Deve estar a brincar, Sr. Feynman!") - com algum custo não incluo Carl Sagan e Stephen Hawking nos quais encontro brilhantismo... mas também alguma formalidade de manual de escola. Gosto muito, mas não são propriamente pageturners. Confesso.

O imperador de todos os males tem por subtítulo "uma biografia do cancro" e é exactamente do que se trata. O cancro é tratado cronologicamente como de uma personalidade se tratasse. Desde as suas primeiras referências históricas, em que uma rainha persa pede a um escravo para que lhe envolver a mama em linho e a cortar com um sabre, passando pela identificação de diferentes tipo de em cancro em múmias. São contados factos históricos e cruzados com a realidade clínica actual do próprio autor. Os primeiros reconhecimentos histológicos de linfomas, o aparecimento, aperfeiçoamento e experimentalismo inicial da terapia anti-tumoral, as primeiras mastectomia. Um contraste histórico com o que um dia foi e o que é hoje. Aquilo que fizemos em várias décadas, o que fazemos hoje e aquilo que temos para fazer nas décadas que de aproximam. 


Por vezes o conhecimento mais aprofundado das coisas ajuda a destruir fantasmas e mitos. Não raras vezes são estes fantasmas e mitos que mais nos assustam e por isto recomendo este livro.

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publicado às 00:01