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O Mandarim e a Diferença.

por Volátil, em 12.06.15

Desde que me lembro de ler os livros do Eça, os primeiros livros que li depois de largar os "Uma Aventura", comecei a abrir dicionários com maior frequência, nem que seja o site Priberam para saber os significado de palavras mas sobretudo para descobrir a etimologia das palavras. A forma como a evolução linguística funciona para atribuir novos significados e novas palavras é fascinante ajuda quase instantaneamente a gravar aquela definição na memória.
Li O Mandarim. Este brilhante livro do Eça que no alto dos meus, talvez, doze anos me fez soar enquanto o lia e que contêm a mais espectacular descrição do Diabo, aparece a Theodoro, personagem principal, com a seguinte proposta:

No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será então um cadaver: e tu verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambição d'um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?

Estes livro tem-me vindo à memória nos últimos tempos, sobretudo ao ler as noticias. Nunca na história da humanidade foi tão real como agora esta a capacidade de poder ter uma acção que parece insignificante numa parte do globo que possa provocar sofrimento a alguém, na outra parte desta esfera. Lá longe as crianças que fazem sapatilhas na China para que do outro lado do globo certos indivíduos tenham calçado fashion para instagramar quando praticam o running, por exemplo.

Tenho-me lembrado muito de Theodoro e do seu conflito moral. Estamos cada vez a encolher mais o mundo e paradoxalmente a afastar mais as pessoas. Não no sentido social do termo mas estamos cada vez a afastarmo-nos mais como espécie.
Se é lá longe... porque não tocar a campainha? E tocamos... todos os dias.

No fundo estamos quotidianamente apenas a escavar cada vez mais a diferença entre povos. No nosso dialogo a palavra "diferente" aparece cada vez mais vezes como "politicamente incorrecta" e é normalmente proferida em conjuntos com as palavras "igualdade", "equidade" e "tolerância". Hoje, em discurso recusamos completamente a utilização da palavra diferente e criando este desequilíbrio estamos a construir a maior diferença de todas.


«Diferente: do latim differens, -entis, particípio presente de differo, differre, diferir que, algo que não é semelhante.»

Esta palavra está a ser desvirtuada do seu significado e é hoje entendida como uma ofensa. 
A diferença deve ser aceite não no sentido proteccionista e de tolerância tantas vezes hipócrita, como com a criação de quotas e contingentes especiais especiais para todos - que são quanto a mim um privilégio e o verdadeira componente perniciosa da diferenciação - ou em vez de reparar que de facto há diferença mas que é essa diferença em muitas perspectivas, não somos uma massa amorfa, indiferenciada e assexuada, mas não obstante da nossa igualdade fundamental... somos diferentes é essa pluralidade que nos permite adaptar, viver e evoluir.
Acredito que ao nos tornarmos mais conscientes das diferenças, não olhando apenas para a árvore sem ver a floresta, acabariamos por tocar cada vez menos a 
campainha. 

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publicado às 20:57