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O Ambidextro.

por Volátil, em 11.04.15

Esquerda e Direita. Em 1789 durante a Revolução Francesa os grupos políticos tomaram, quase espontaneamente, uma divisão espacial especifica no "hemiciclo" da Assembleia Constituinte durante os debates. Os deputados que representavam a aristocracia e os defensores de uma monarquia constitucional, assim como a burguesia, sentavam-se à direita no plenário. Estes elementos, maioritariamente oriundo da província de Gironda eram conhecido como "girondinos" e eram contra o processo revolucionário. 
No centro do plenário tinham lugar elementos da burguesia que não tinham propriamente  uma opinião fixa e tomavam decisões conforme  o rumo dos acontecimentos.
Do lado esquerdo estavam os jacobinos (mais radicais) e os sans-culottes (mais junto do povo), eram um grupo formado pela baixa burguesia e trabalhadores. A esquerda francesa procurava fomentar a revolução no sentido de garantir melhorias na vida da população pobre, e que abrissem a participação política a todos os cidadãos. 

 

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O pensamento politico é demasiado complexo para se estender numa linha orientada. Então, a esta linha dividia a meio podemos acrescentar dimensão vertical. O autoritarismo e libertarianismo. 

Assim, temos quatro áreas politicas mais ou menos definidas. Misturando a esquerda com autoritarismo temos um regime totalitário, juntando-o à direita obtemos um regime conservador/fascista. Já o liternarianismo na esquerda leva ao socialismo e o libertarianismo de direita dá o liberalismo. 
Os termos não são claros e vão sofrendo alterações ao longo do tempo, mas sobretudo, podem ser utilizados para designar coisas diferentes se estivermos a debruçar-nos sob uma vertente económica ou de uma perspectiva social ou moral.

Associar indivíduos aos quadradinhos de cima não é fácil e corremos o risco de estar a misturar no mesmo saco malta bem diferente, como por exemplo: Mussolini, Hitler, Angela Merkel, Salazar, Nigel Farage e Le Pen, à direita e no lote da esquerda podemos colocar Fidel Castro, Kim Jong-un, Álvaro Cunhal, Benjamin Franklin e Dilma Rousseff. Já se vê pela diferença que existe entre os elementos do mesmo grupo que foram escolhidos ao acaso apenas pela sua localização na dicotomia politica.

 

Como a generalidade dos rótulos, a etiquetagem de tendências politicas permite prever ideias e situar a nossa opinião na sociedade e sobretudo no mundo da informação. Por isso, ainda que se perca por falta de precisão, convém manter as coisas o mais simples possível. Afinal para que serve a politica? Como é que se pode dividir o pensamento de esquerda e direita de forma simples? E onde é que nós estamos no meio de tudo isto? (segundo a minha perspectiva, obviamente).

A politica pode definir-se como sendo "a arte ou ciência da organização, direcção e administração de nações ou Estados". Um Estado soberano é o conjunto de instituições que asseguram a regulamentação e administração independente dentro de uma determinada área geográfica bem delimitada a que chamamos país. Então a politica para administrar um país.
A governação de uma país assenta sobre duas perspectivas, a social e a económica. Numa política de esquerda o programa de acção social tem prioridade sobre a acção económica, enquanto que à direita dá-se a prioridade inversa, os planos económicos têm a primazia sobre as planos sociais. Embora os dois pilares existam e estejam inter-relacionados nas duas variantes, a questão é simplesmente de prioridades.

 

Em Portugal assistimos a algumas mudanças politicas fundamentalmente no pós-25 de Abril. Desde 1974 o Partido Comunista Português (PCP), Partido Socialista (PS), Partido Social Democrata (PSD) e Partido do Centro Democrático Social - Partido Popular (CDS-PP) são os principais players do campo politico nacional (que me desculpem os partidos mais recentes). Contando com as diferenças ideológicas que os distinguem pode-se perceber apenas pela análise dos nomes que todos se assemelham, de certa forma. Socialista. Popular. Social. Democrático. À excepção do PCP, por razões obviamente históricas, todos colocam uma perspectiva social no seu cartão de visita.
Isto não acontece por acaso. Quando se trata de ganhar eleições, democraticamente, uma postura mais social ou mais alinhada à esquerda reúne sempre uma maior percentagem do eleitorado. Quando chega a hora de colocar a máquina executiva a funcionar o alinhamento politico vai sempre cair mais à direita do que o programa previamente definido. 

 

Uma outra característica, mais "psicológica", por assim dizer, que se nota na direita é o seu pragmatismo ao passo que a esquerda normalmente fala sempre com o coração na boca. Tanto o calculismo como a precipitação acabam por esbater as fronteiras entre os alinhamentos políticos na hora da execução das medidas do Governo.

 

A direita nunca deixou de ser direita, mas a esquerda deixou de ser esquerda. A explicação pode parecer simplista, mas é a única que contempla todos os aspectos da questão. Para serem participantes mais ou menos tolerados nos jogos do poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde, infalivelmente, se encontraram com uma direita política e económica já instalada que não tinha necessidade de se camuflar de centro. Entrou-se, então, na farsa carnavalesca de denominações caricaturais com as de centro-esquerda ou centro-direita. Assim está Portugal, a Itália, a Europa.

José Saramago, in 'La Republica (2007)

 

Outra característica que marca uma fronteira nem sempre bem definida mas mesmo assim uma fronteira é a questão da dimensão do Estado.
A esquerda inclina-se para uma maior dimensão de Estado - ou seja - o Estado tem que regulamentar todas as áreas criticas no país, saúde, educação, justiça, economia e trabalho. Pela cobrança de impostos. Esse controlo pressupõe a disponibilização de vários serviços públicos (saúde e educação, por exemplo) de forma fácil e barata a todos os cidadãos de forma igual. O Socialismo. 
Na direita a tendência vai para a diminuição do Estado a uma dimensão elementar e uma estrutura de mercado mais livre e maleável que permita a um individuo estruturar o seu capital como bem entender. Os serviços públicos existem aqui uma espécie de outsourcing em que cada um pode adquirir os serviços que quiser. Será esta liberdade de trabalhar como e para quem se quiser, fazendo o uso dos fundos que iriam para os impostos que a direita acredita aumentar a riqueza dos indivíduos e da nação,. Sendo que a riqueza individual será fomentada pelo mérito de cada um. O Liberalismo.

Se por um lado o socialismo se está a esgotar em si próprio, com a crise, o liberalismo tende a escavar a diferença entre os mais ricos e os mais pobres. Sendo que os mais pobres em países mais economicamente liberais serão mais ricos do que os mais pobres em países socialistas. Outro factor que me parece associado aos países com um Estado maior uma maior corrupção que se alimenta dos fundos de investimento público. Mais dinheiro, mais corrupção (estatal, pelo menos).

 

Uma questão que aparece muitas vezes nos media é a relação com os extremos. Extrema-esquerda e extrema direita. Parece-me que as diferenças entre as pontas extremas de cada facção e o grosso da coluna são diferentes.
Da esquerda para a extrema-esquerda a diferença parece der de força ou dimensão. As ideias da implementação da igualdade na sociedade pode ser implementada com mais ou menos autoritarismo, com mais ou menos rigidez. Ao passo que a diferença entre direita e extrema-direita é uma questão de fundamento. Em que na extrema-direita se dá a proclamação das hierarquias sociais, por étnica, religião e orientação sexual. Anti-emigração. Anti-integração em grupos internacionais como a União Europeia, por exemplo. É uma forma completamente diferente de pensar a sociedade e é acima de tudo limitadora da democracia (e muitas vezes criminosa!) o que não acontece na direita liberal. 

 

 

Estas parecem-me ser as diferença básicas entre direita e esquerda sem mencionar nomes da filosofia politica e da economia como Adam Smith, Marx, Keynes ou Heykes, que dão uma aparente credibilidade mas que tornam tudo ainda amais aborrecido.

 

 

 

Disclaimer: o individuo que escreveu isto não é politólogo e parece que raramente abre livros de filosofia politica. Contudo, tem opinião sobre as coisas e vê com bons olhos que lhe apresentem novos elementos, não tendo problemas em mudar de ideias se assim lhe parecer evidente. O individuo que escreveu isto não tem filiação partidária e nem pretende ter.

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publicado às 20:04