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Nox comportamental.

por Volátil, em 16.05.15

O dia passava a noite e a noite de volta ao dia. A escuridão estava sempre presente. E este escuro não era apenas um espaço sem luz. Este escuro apertava, expandia e sufocava, pressionado contra o peito. Esse negrume feito de nada apertava-o constante e progressivamente. Por vezes distraia-se e conseguia respirar e viver naquele meio, mas, com o tempo os olhos habituam-se à escuridão e passam, por outro lado, a ter dificuldade em lidar com a claridade.

Anos passaram e a matéria negra começou a crescer para dentro dele. Não tendo mais por onde seguir. Entrou pela boca e olhos, mudou o olfacto, foi tingindo os pensamentos. 

Subitamente tudo muda. Alegria esfusiante. Força de fazer tudo o que teria perdido naquele período de contemplação do escuro. Vontade de acender uma lanterna e apontar a sua luz pelo caminho que resta e seguir em frente. Apoiado só em si e na vontade de mudar. E Mudou.

Atingido o plateau de exaltação começou a queda. A vertiginosa queda. Os braços pesados. A grande dificuldade de sair da cama. O sangue que lhe fervia de forma sobredimensionada. O desespero da impossibilidade de retorno. E assim ficou na incerteza do seu espírito de amanhã...  no medo da queda após a subida sem aviso. 

 

A apatia é uma doença. No filme francês "mon oncle d'amérique" de 1980 é apresentada uma experiência da área da biologia comportamental pelo Prof. Henri Laborit. Trata-se de uma experiência com ratinhos em que se coloca um ratinho numa jaula electrificada. Antes do ratinho levar um choque no sitio onde tinha comida é accionado um alarme. Eventualmente o ratinho aprende a fugir para o lado oposto da jaula depois de ouvir o alarme e antes de levar o choque. Contudo, o choque começa a chegar de ambos os lados da jaula seguido do mesmo alarme. Este estado de stress biológico cria visíveis debilidades físicas no ratinho. Não come, perde pêlo e são mesmo detectados alguns carcinomas. Mas, quando a experiência é executada com dois ratinhos na mesma jaula, começam-se a gerar conflitos entre os animais na tentativa de fuga ao choque após o sinal. A realidade é que, ainda que tenham lutado, nenhum dos ratinhos perdeu pêlo, apetite ou qualquer tipo de debilidade física verificável como o ratinho que passou por tudo sozinho.

Tenho duas conclusões a tirar da experiência relatada no filme: A solidão e a angustia matam. A ruindade conserva. 

 

NOX1

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!
       

~ Antero de Quental ~ 

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publicado às 09:52