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Nova Anatomia do Gin.

por Volátil, em 23.05.15

O que é que se passou com o gin? 
Nos finais da década passada só tínhamos acesso a três tipos de gin: o bom, o razoável e o mau.
Todo o gin tónico era servido utilizando apenas um de dois tipos de água tónica: a boa e a má.
Adicionava-se limão... and that was it!

Algo aconteceu há meia dúzia de anos para que o gin se tornasse numa  bandeira de sofisticação e até alguma altivez intelectual por parte dos orgulhos apreciadores deste cocktail. Foi uma mudança enorme de popularidade e proporcionalmente foi crescendo o nível de complexidade da sua elaboração e preço.

 
Sempre demorou muito para que nos fosse servido. Antes, ao balcão de um qualquer bar, demorava par que o barman encontrasse a porra da garrafa de gin, nunca uma pessoa pedia aquela porcaria, e por isso ela ficava guardada atrás de uma imensidão de garrafas de vodka cada um com o seu sabor exótico e jovem. Agora, demora para que o copo-balão gigante seja primeira atestado com gelo perfurado e depois temos de passar a própria meia hora a escolher as especiarias que queremos ver a boiar lá dentro, como se estivéssemos a preparar caril.
Surgiram então múltiplas marcas de gin, cada uma mais artesanal, ancestral (sim, surgiram e ao mesmo tempo sempre existiram!) e aromaticamente evoluídos. Apareceram também inúmeras águas tónicas espectaculares, todas muito espectaculares. Porque, já dizia o meu professor de marketing, a primeira coisa que um produto de luxo tem de ter é um preço estupidamente alto, independentemente do que seja.
A estes dois fluidos bebíveis que só papilas gustativas de sofisticada sensibilidade conseguem perceber, são adicionadas toda uma panóplia de adereços botânicos (sim... adereços porque a maior parte só lá está para enfeitar). A saber: pepino, bagas de zimbro, pétalas de rosa, pimenta da Jamaica, pimenta rosa, alcaçuz, estrela de anis, hortelã, sementes de coentros ou cardamomo (e não sei se ainda se usa limão... ou se está démodé).

Bar-Astor_Gin-Tônica_Tea-Tonic-Frutas-Vermelhas_1O gin é feito a partir de álcool puro e bagas de zimbro e tem um sabor entre o levemente doce e o adstringente. Parece que esta tintura foi utilizada por monges na idade média pelas suas propriedades antiespasmódicas.
A água tónica aparece na Índia no Sec. XVII produzida através da casca da Cinchona. Esta planta contém um alcalóide, o quinino, que foi isolado e identificado em 1820... e foram associadas a esta moléculas as propriedades antimaláricas da Cinchona officinalis, já utilizada desde tempos imemoriais pelos Incas.
A junção desses dois líquidos para produzir o agora famoso gin tónico tem origem também na Índia, onde, reza a lenda, os soldados ingleses tomavam água tónica com grandes quantidades de casca de Quina (ou Cinchona) misturada com gin, para camuflar o sabor amargo (do alcalóide) e se protegerem da malária.
Outra particularidade do quinino é a sua fluorescência a radiação ultra-violeta. É, por isso, possível ver os copos de gin acenderem como pirilampos ao serem atingidos pela "luz negra" comum nos bares e discotecas.

 

Contudo, o que é difícil de aceitar nisto tudo é o facto de ser socialmente constrangedor, nos dias de hoje, pedir um gin sem primeiro estudar algumas páginas sobre esta matéria (e se existe extensa literatura e workshops por toda a parte!). Somente para não fazer má figura ao balcão do bar. É também praticamente impossível, com todas estas mariquices, adquirir a bebida sem gastar no mínimo 10€...

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publicado às 12:23