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In vino veritas

por Volátil, em 17.07.14

Nasci no Alto Douro vinhateiro. Sei enxertar em garfo, enxofrar, cortar as "netas", plantar bacelo, e fazer jeropiga. Fui transplantado desse lugar para a cidade quando tinha 10 anos.

Nunca me senti confortável no sítio onde nasci, mas gosto do sítio onde nasci, simplesmente sempre senti que não era o meu sítio. Uma espécie de videira que, infectada pela filoxera, não ia desenvolver... no meio da imbecilidade e ar saudável do campo. Desde que me lembro que queria ir estudar para a Universidade de Coimbra, muito antes de saber a quantos quilómetros ficava Coimbra.

Fui enxertado em"americano". Custou-me horrores ultrapassar as dores do crescimento num sítio tão diferente. As primeiras folhas só começaram a crescer dois anos depois. O primeiro ano ficou estragado pelo sal das lágrimas que me corriam pela cara assim que chegava a casa. Não era tão inteligente, tão expedito, não tinha sapatilhas da Nike, nem sabia jogar Magic the Gathering (que raio de sítio onde ninguém jogava ao berlinde nem tinha um pião com bico de prego...).

Voltava todos os fins-de-semana. Respirava fundo. E na segunda-feira estava no colégio (é hoje um distinto lugar de ensino onde hoje se usa uniforme) que era suposto fazer-me bem. E fez. Malditas freiras.

Passei a ser dos melhores alunos, nunca o preferido das "irmãzinhas", pois era enxertado, mas... who cares?

Nunca mais voltei a esse sítio desde o exacto dia em que terminei a última aula do 9º ano. Saí com tanta euforia que rasguei as calças num ferro do bengaleiro da porta principal. Ia começar uma vida nova caraças e eu estava preparado! (só que não...). Foi a alegria de uma bom ano de vindima. )Mas o vinho, anos mais tarde, não saíu assim tão bom.)

 

Nunca nos devemos esquecer nas nossas raízes. A filoxera está sempre à espreita.

 

 

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publicado às 22:28