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Fluoxetina para Android.

por Volátil, em 28.05.15

Doentes do SNS com depressão vão poder fazer psicoterapia através de smartphone.

Parece que o SNS vai, a partir de Setembro, disponibilizar uma ℞-app para smartphones e tablets, que por prescrição médica, vai conduzir o "tratamento" de doentes com depressão diagnosticada de "ligeira a moderada" num curso terapêutico de 8 semanas.  Cada semana corresponde a um módulo diferente que, segundo o psiquiatra que coordena este projecto, "responde às necessidades de 90% dos doentes com depressão nos cuidados de saúde primários". Este psiquiatra, de seu nome Ricardo Gusmão, é dirigente de uma plataforma chamada EUTIMIA  que é a representante em Portugal da Aliança Europeia contra a Depressão.

[Curiosamente, ou não, "eutimia" é a definição de Séneca para o sentimento de tranquilidade. 
Este projecto, tem um site e francamente... para quem faz um site destes... duvido muito que consiga produzir uma app.]

 

Isto vem  demonstrar de uma forma muito clara que ainda hoje não se sabe o que é a depressão, como aparece ou como se trata. Tudo isto parece uma tentativa (meritória, sim) de tentar fazer alguma coisa para resolver um problema que não sabemos como resolver.

A depressão está descrita desde a Idade Média. A bílis negra, da teoria clássica dos humores corporais, foi procurada dentro de cadáveres humanos durante décadas por anatomistas da época, sem sucesso. Melancolia, como lhe chamavam, era notada como um problema mesmo na época mais deprimente de toda a história da humanidade. A depressão é ainda hoje um problema que conseguimos definir em palavras mas não conseguimos concatenar em fundamentos. O mal do século, tem agora um concreto e maior entendimento mas está longe de estar perfeitamente delineado. 

A tentativa de ajudar uma pessoa com depressão major (eu não faço ideia do que seja a parte do "ligeira a moderada") é de valor! Por isso deve ser incentivada, seja pela compreensão da participação dos neurotransmissores como a serotonina na nossa disposição como pela consciencialização da pessoa deprimida para procurar ajuda, nem que seja por uma app. 

O problema na supracitada noticia está na palavra "tratamento". Esta palavra deve ser usada com muito cuidado, porque hoje, felizmente, já não estamos na idade média em que se usava desde sangramentos a rezas para afastar o "ar ruim" que propagava a peste negra. 
Queremos curar o mal do século com tudo o que estiver à nossa disposição. Mas hoje a medicina avança com base na evidência e a palavra tratamento carrega uma esperança para os doentes que nunca em nenhum momento da história carregou.
Verificou-se que a serotonia e a dopamina estavam ligadas à boa disposição e que a depleção destas moléculas neurotrasmissoras nas fendas sinápticas se associava a estados de tristeza, desanimo e ataraxia. 
Apareceram o antidepressivos. Os mais prescritos (nos EUA) como o Abilify, apesar de terem evidência da sua eficácia, não está claro como realmente funcionam ao nível molecular (como é o caso da grande maioria dos fármacos, na verdade...). Portanto, se tentamos bloquear todo o tipo de recaptadores de monoaminas não podemos ser contra a utilização de uma app que o pior que pode fazer é deixar o doente deprimido... deprimido. Ao utilizarmos a palavra tratamento estamos a transferir a estudada eficácia estudada e reverificada dos antidepressivose de acções terapêuticas acção não medicamentosas como as ligadas à psicologia/psiquiatria,  para um programa informático que tem, à partida, a mesma acção "terapêutica" de um daqueles folhetos que preenchem a mesas das salas de espera dos centros de saúde e hospitais. Esses panfletos devem existir? Claro que sim! Contribuem para a consciencialização das pessoas para a doença? Claro que sim! Tratam verdadeiramente e por si? Não me parece!

 

Uma vez definiram-me o sentimento de depressão com um "sinto que estou a apodrecer por dentro".

A depressão é uma doença clinicamente sobrevalorizada, comprovado pela quantidade desproporcional de antidepressivos consumidos pela população em geral, e socialmente desvalorizada, na medida em que é entendida como apena uma tristeza que passa se estivermos ocupados ou até apenas preguiça. 

Entendo a depressão como uma espécie de anorexia da acção de viver consigo mesmo e com a sociedade. Vai diminuindo cada vez mais a reacção a qualquer estimulo social... e mais tarde até pessoal e espontâneo. Progressivamente. Até não estarmos nem bem com os outros nem bem connosco próprios. Sem nunca ter noção daquilo que o "espelho" nos apresenta. 
Não aconselhava uma app a uma pessoa que se sente assim.

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publicado às 20:17