Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



De quem é a vaca?

por Volátil, em 17.06.15

«Um escritório de um bacharel formado em Leis. Uma grande mosca assinalava o cimo do queixo, aflorando ao lábio inferior. Umas suíças quase enchiam as rotundas bochechas e encobriam as orelhas e para o qual contribuía, de certo, a trunfa cabeleira. Um bigode retorcido e frisado pelo ferro, colorido pelo queimado do rapé. Ao seu lado um imberbe moço, recente bacharel, também de Leis, praticante do advogado que era seu pai.

Um lavrador, usando as suíças da praxe, ofegante e em camisa de mangas arregaçadas, nas mãos o inseparável e habitual cajado, suando as estopinhas, vinha naquela tarde de um calorento verão, galgando a escada de pedra, procurar o Senhor Doutor para apresentar o seu grande e enormíssimo problema.

— Então, Sr. Manel do Arco, o que o traz por cá ?

— Ó, "S'otor". Estou aqui para vossemecê tratar de um meu caso. É que Tone da Eira, aquele que mora ali p’rás bandas do rio, tem lá uma vaca que é minha. Quer saber, há dois meses, trazia lá no lameiro ao pasto uma vaca, a "'marela", linda com’ó as amores e atão pr’a leite, não havia "oitra". Vai daí, nesse dia o raio da vaca, "num" veio p’ró eido e nunca mais a vi. Até que "oitro" dia, ao passar à beira do rio, "num" é que a vi, no pasto do Tone. Fui ter c'o ele e disse-lhe : ò Tonê, aquela vaca é a minha que se perdeu.

— T'ás enganado. Não é gado do vento. "Cumprei-a" na Feira dos Vinte e dei "bôs" cobres por ela!

— Não, não, é a minha 'marela”!

— Ó S'otor, o raio do "home" teima que é dele, e "num" ma dá, e é por isso que eu aqui venho. Toma conta do caso?

— Ó homem, isso nem se pergunta. Arranje vossemecê duas testemunhas e pomos já nas justiças!

— Amanhã, cá tem as testemunhas e se for preciso dar já o sinal para as justiças, diga lá quanto tenho que lhe dar já.

— Depois vemos!

Pouco depois, no mesmo escritório, aparece o Tonê da Eira. Suado, esbaforido, com o sempre companheiro varapau, a camisa com as mangas arregaçadas, as suíças de bom lavrador, o bigode retorcido e uma também frondosa trunfa, rematada numa pêra esbranquiçada.

— Dá-me licença S'Doutor.

— Entre, entre, então o que há.

— O Tonê do Arco, diz que a minha vaca é dele. Ora, eu "cumprei-a" na Feira dos Vinte, e "num" é "Gado do Vento". Gastei "um'ror" c’o ela. Lá por que é da mesma cor, "num" é a que ele perdeu. "Num" acha que é assim. Diz que vai p'ras justiças e eu não m’importo. A vaca é minha! O senhor doutor, vai às justiças defender-me?

— Pois está claro, a justiça acima de tudo e, já agora quem vai tomar conta do seu caso é o meu filho. Vai ser uma estreia de arromba. Arranje duas testemunhas e venha cá depois de amanhã. O Tonê da Eira, satisfeito com o resultado do conselho lá foi, aliviado pois, por causa das dúvidas deixou umas notas para os preparos.

 

E agora é a conversa entre o velho causídico e o imberbe advogado.

— Então, pai!... Afinal de quem é a vaca ?

— Vê-se logo que és um inocente... A Vaca? A VACA É NOSSA!»

 

 

Alguém me enviou esta pequena história em jeito de anedota.
Lembro-me muitas vezes dela durante a leitura de noticias nos últimos tempos... é uma perfeita alegoria da promiscuidade entre a justiça, a politica e os negócios... 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:14