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As crianças de cérebro plastificado.

por Volátil, em 06.01.15

Uma mulher trazia uma criança pela mão. Um miúdo um bocadinho pálido, seguramente entre os seis e sete anos, de óculos de massa azul marinho e um penteado muito direitinho. Entrou na sala de espera ao lado da mãe e sem olhar foi directamente sentar-se na cadeira, de pés cruzados, mãos sobre as pernas e a olhar direccionado para a frente. 

"É tão sossegadinho", disse uma senhora sentada na cadeira ao lado.
"Já tomou o comprimido hoje, se não, não se podia aturar!", respondeu a mãe. 

 

 

O Distúrbio do Deficit de Atenção e Hiperactividade, introduzido na 4ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (aka DSM-IV), era a razão que trazia aquela mãe ali. O comprimido que o garoto já tinha tomado naquele dia era Metilfenidato, o único tratamento disponível para este mal. 

Tenho reparado que cada vez chegam mais crianças diagnosticadas com este distúrbio e a tomar metilfenidato desde muito novas. Porque não querem estudar, porque não estão sossegadas, porque são difíceis de aturar. Pergunto-me se este diagnostico não estará a ser formulado cada vez mais de animo leve pelos pedopsiquiatras, talvez pressionadas pelos país que querem uma criancinha sossegadinha e aplicada na escola.
O diagnóstico em si é completamente subjectivo, embora a suspeitas para a origem destes transtorno sejam genéticas, não existe nenhum marcador quantitativo que possa avaliar objectivamente a criança. Não é possível fazer uma bateria de testes bioquímicos ou hematológicos e dizer que a criança é hiperactiva porque "deu positivo".

 

Acho que é inegável que há uma hipermedicação com metilfenidato. O neuropediatra Nuno Lobo Antunes diz que é um erro olhar para os abusos de medicação é estar a ignorar “centenas de milhares de crianças com défice de atenção que ainda não estão medicadas” e também acha que “dizer que a Ritalina é uma moda é uma ideia infundamentada, um mito urbano que se propaga…”(aqui). Mas como é evidente para um neuropsiquiatra quanto mais crianças existirem com vigilância periódica durante anos e anos... melhor é o negócio.
Não duvidando da existência de crianças a precisar de ajuda para elas próprias, em primeiro lugar, e em segundo lugar, para os pais. A moda é o motor dos motores para qualquer negócio.
Há muito pudor em colocar saúde e negócio na mesma frase. Dizer que para os país é muito doloroso admitir que o seu filho tem um problema e colocá-lo sob medicação parece muito lógico e acertado. Mas, também nos devemos lembrar na severa competição urbana nas escolas, em que os pais picam os miúdos como se fossem cavalos de corrida para obter melhores notas, talvez as palavras "moda", "negócio" e "ritalina" comecem a fazer sentido juntas. 

 

Anfetamina, Dextroanfetamina y Metilfenidato.jpg

O Metilfenidato é um psicoestimulante derivado da anfetamina e é classificado como psicotrópico sujeito a controlo especial pelo INFARMED (Lei n.º 13/2012, de 26 de março) inscrito na Tabela II-B. Em termos simples esta molécula, à semelhança das outras anfetaminas, inibe a recaptação da Dopamina e Noradernalina. Isto permite o aumento dos neurotrasmissores entre neurónios, aumentando consequentemente as interacções entre ele melhorando  a actividade cerebral.
Não é à toa que alguns estudantes, nomeadamente na Faculdade da Medicina, recorrem a esta molécula para fazer face ao marranço agressivo que lhes é exigido. Sendo fácil a obtenção de uma prescrição neste meio esta utilização (não acredito que muito comum) existe.

 

O mal de muitas doenças é a falta de paciência. Queremos um comprimido para dormir, outro para a acordar, outro para estar atento, outro para estar descontraído, outro para facilitar as necessidades fisiológicas outro para comer mais, outro para comer menos... e um para facilitar a educação dos nossos filhos. É isto que faz com que, nos EUA, a dispensa de metilfenidato tenha aumentado 274% entre 1993 e 2003 (aqui). Será que o número oculto de crianças verdadeiramente hiperactivas não medicadas é assim tão alto? Ou procuramos moldar os cérebros dos miúdos para serem mais como queremos? Não sabendo a resposta... é isto que me preocupa.

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publicado às 21:53