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Anatomia de uma piada.

por Volátil, em 27.07.15

Nunca gostei de explicar uma piada, principalmente porque é uma falta de respeito pela inteligência da pessoa que aparentemente não a percebeu. Pode até não achar graça mas se não percebeu o que a piada significa também não estará em condições de poder tomar partido quanto ao significado humorístico da mesma. Quando explicamos uma piada ela está a ser requentada e não terá o mesmo impacto como se fosse percebida imediatamente. É uma situação muito constrangedora e ridícula.... mas vou arriscar esta!

 

Mulher foge com o filho recém nascido há 2h e agora anda a ser procurada pela PSP.
Fascistas anti-mulheres! 
Ela é que sabe o q é melhor!

 

Na matemática, um dos métodos de provar a validade lógica de uma determinada expressão é a prova por contradição. Toma-se por verdadeiro o contrário do que queremos provar. Desenvolvendo toda a equação iremos chegar à redução ao absurdo ou reductio ad absurdum, ou seja, a uma igualdade logicamente falsa como por exemplo 1=0. 

Uma das coisas que faz rir a humanidade desde o inicio dos tempos é a exposição do ridículo. Talvez como mecanismo catártico das nossas próprias falhas, não sei bem, mas o assinalar de uma situação ridícula faz-nos rir. Uma queda aparatosa. O Jorge Jesus a dizer "peaners". Comparação directa de dois extremos de grandeza. Enfim... falar de humor não é nada engraçado. 

 

No caso em apreço quis construir uma mistura de reductio ad absurdum com a comparação directa de duas situações diferentes de modo a provar o ridículo da premissa "fascistas anti-mulheres" utilizada pela senhora deputada Isabel Moreira durante a votação da proposta de alteração à lei do aborto, acrescentando à lei já existente aconselhamento psicológico obrigatório e pagamento de taxas.

Uma coisa importante para achar graça a uma piada é conhecer as verdadeiras convicções ou opiniões de quem constrói a piada. De outro modo torna-se difícil perceber o exercício de ironia e maiêutica que esta encerra. A minha opinião para o caso pode ser resumida pelo seguinte: Apoio psicológico deve ser oferecido e encorajado mas não deve ser obrigatório. Quanto ao pagamento de taxas não consigo ver "porque não", atendendo à quantidade e natureza de procedimentos médicos e burocráticos já cobrados pelo SNS. 

"PSP procura mulher que abandonou hospital com filho recém-nascido" Esta foi a primeira premissa da piada, situações completamente distintas com alguns elementos em comum. Vamos partir então para a redução ao absurdo! A mulher fugiu com o próprio filho do hospital (o recém nascido está em risco de vida por este facto), a PSP buscando o superior interesse da criança descura a vontade da mulher e procede assim a uma atitude que vai contra essa vontade imposta por força (fascismo) contra a mãe (anti- mulheres). 
Eis que, como consumávamos dizer nas aulas de análise matemática, "corta, corta... por redução ao absurdo 1=0... ".

 

Agora não tem assim tanta graça, pois não?
Eu avisei...

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publicado às 19:37