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Activismo QWERTY

por Volátil, em 16.01.15

A internet está, como sempre, indignada - e bem! - porque isto de conseguir, aparentemente, encaixar o Mundo e arredores conhecidos num ecrã pode evidentemente elevar em cada um dos internautas o extremo das emoções sem levantar o cu da cadeira. É extremamente conveniente e confortável. Eu adoro.
A informação é de facto uma arma, uma ferramenta que nos permite observar a Terra de cima e, abrindo a janela, ver o que se está a passar. Esta jigajoga do on-line tem também esta estranha tendência de fazer emergir o pior de cada pessoa, a mais triste de todas as história, a mais necessária indignação sobre um determinado assunto.

Assim chegamos ao ponto de comparar escalas de horrores. Porque nos manifestamos por 12 pessoas assassinadas a tiro de metralhadora em Paris e não nos indignamos tão veementemente com o Massacre de Boko Haram na Nigéria? É uma pergunta legitima que até tem uma resposta obvia.
Nós temos esta necessidade inata de proteger em primeiro lugar a nossa própria pele. É uma necessidade do nosso lado animal e instintivo. Em segundo lugar vem a necessidade de alimentar o nosso lado humano e emocional, procuramos sentir-mo-nos reconfortados no nosso intimo, queremos poder dizer que somos bons seres humanos com valores. Claro que a forma mais fácil de demonstrar isso é apresentar a nossa indignação para com situações, inegavelmente horríveis e a carecer de intervenção humanitária, mas que estão suficientemente longe para que a nossa preocupação e vontade de ajudar se resuma a uma singela publicação no Twitter ou no Facebook. É uma ausência de sacrifício que nos recompensa com a satisfação de sermos pessoas integras e bondosas.

 

Quando nos revoltamos por se não estar a dar a importância (no sentido quantitativo do número de vezes que a referimos) a uma determinada calamidade estamos a querer destaque da nossa integridade e valor. Queremos inflacionar isso a partir de uma vontade oca de ser pelo bem e pela paz. E assim são perpetrados ataques vindo de pessoas pela "web-paz" contra as pessoas que aparentemente representam a "não-tão-veemente-web-paz". O que me parece ridículo mas normal, para que assim se mantenha boa homeostase do nosso egocentrismo e valor intelectual, demonstrando e elevando a nossa necessidade de ter um pensamento único e na mais íntegros que o nosso semelhante, para  que assim sejamos recompensados com alguma reverência ou destaque. Eu acho triste, embora me consiga rever também neste comportamento de "activismo qwerty".

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publicado às 20:13