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A desp(ed)ida.

por Volátil, em 07.05.15

Os dias passaram progressivamente vagarosos até à derradeira manhã. Tudo está já desocupado. O escritório, o laboratório e o armazém. Com excepção da marquesa e de uma pequena caixa de cartão com os últimos livros da estante já desmontada, aqueles que por nada podiam sofrer qualquer dano.
Tiago tinha sido o primeiro a chegar, e seria o último a sair. Não o esperava grande trabalho. Mas a manhã tinha sido complicada. A água quente falhou, o pneu do carro furou, e o senhor policia tinha-o simpaticamente mandado seguir quando viu que não tinha a carta verde do seguro no carro. Uma sorte. Mas não seria a única sorte daquele dia.
Tinha acontecido tanta desde que tinha levantado a cabeça da almofada que a sensação era de já estar a ser ofuscado pela claridade do sol do meio-dia.

A campainha tocou. Não tinham percebido que estava tudo fechado desta vez... e de vez.
Pela silhueta era uma mulher. Alta e de cabelos compridos escuros. Era tudo o que o vidro martelado da porta da frente deixava adivinhar e Tiago não conseguia associar aquela imagem fosca a nenhum pessoa conhecida. Foi abrir. 

A Débora entrou rapidamente e fechou de seguida a porta empurrando-a com as costas. "Pensei que já não te voltava a ver! Que te deu para ires embora sem dizer nada?". Tiago ficou sem reacção, como ficava sempre quando o perfume que aqueles cabelos negros deixavam no ar lhe entrava pelas narinas e ocupava todos o lugar dos pensamentos. Nunca tinha reunido a coragem para o sentir de mais perto. Não que não tivesse, por varias vezes, cerrado os pulsos e pensado "é agora!". O "agora" nunca aconteceu e àquela hora da manhã com os caixotes empilhados na mala do carro, a caixa dos livros e o cubo de Rubik que lhe ocupara os tempos mortos já em posição de embarque. Esse "agora" parecia cada vez mais quimérico. 

Débora dá uma volta pelo vazio do que já tinha sido o local de trabalho de ambos. "Como é que isto aconteceu tão rápido?". Ele não sabia responder tinha recebido um telefonema há dois dias. Era uma oportunidade de mudar de trabalho e de país e de vida...que foi aceite com um simples e rápido "Sim".

Sentaram-se ambos na marquesa, já que não havia mais nada por ali. O sol batia-lhes nas costas.

"Que fazes aqui tão cedo?"
"Não gosto de despedidas..."
"Devias abrir mais os olhos... um bocadinho só."
"Porquê?"
"Hoje deves ter acordado cansado..."

"Cansado?"
"Andaste pelos meus sonhos..."
"A fazer o quê?"

Não se ouviu mais um único conjunto de palavras com sentido a partir daquele momento.
Débora segurou na cara recentemente barbeada de Tiago e deu-lhe um beijo na face. O perfume, outra vez o perfume, emanado daquela pele branca e dos cabelos de ébano, foi sentido com uma proximidade tal que o paralisou. Por momentos. Abraçou-a. Aí percebeu que Débora já tinha decidido que queria ser abraçada daquela forma, mesmo antes que os braços de Tiago tivessem reunido forças para se mexerem. Outro beijo. E outro.
O lábios de Débora não eram como Tiago tinha tantas vezes imaginados nas noites em que adormecera sozinho na cama pequena demais para o seu corpo. Eram lábios quentes quentes e volumosos. Toda ela era calor e os dois corpos fervilhavam e pulsavam enquanto de agarravam com a força de quem tenta puxar as horas e os dias para trás.
Ao colo de Tiago ela conseguia puxar-lhe a alma em cada beijo. Deixou cair a leve blusa azul no chão enquanto Tiago se desenvencilhava de tudo quanto o estava a separar daquelas desejadas e pergosas curvas femininas.

Tinham-se esquecido do tempo e do espaço e de tudo aquilo que lhes era exterior. Só os dois importavam. As mãos de Tiago nas coxas de Débora faziam tudo valer a pena. Todas as noites mal dormidas, os medos, as dúvidas. Aquele momento valia por tudo. Escutar o gemido daquela voz delicada e doce, sentir as mão e unhas no peito de Tiago, endurecia a sua vontade por aquela que era até ali feita apenas de fantasia e de sonho.
Nadaram largos minutos nos corpos despidos um do outro. Desejaram que aquele momento ficasse emoldurado para sempre. Explodiram em  êxtase. Sem medos e sem pudor. Ficaram ali, no chão, com tudo espalhado à sua volta. 

Roupa e livros amaçados, cubo de Rubik partido. Um sorriso e um adeus. Sem mais. Não gostavam de despedidas.

 

Mais tarde, ao entrar no carro Tiago reparou num pequeno cartão entalado no pára-brisas. Numa caligrafia muito familiar estava escrito um número de telefone e numa unica linha um "ai de ti que não me ligues quando chegares... meu palerma. Adoro-te."

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publicado às 23:17