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Mau tempo nas almas.

por Volátil, em 27.07.13

Nem sempre gostei de ler. Nem sempre li quando comecei a gostar de ler, mas quando as duas elipses deste diagrama de Venn se intersectam é uma obsessão. Como acontece quase sempre comigo, alias. 

 

Hoje, mesmo há bocado, apareceu-me na cabeça uma citação do Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio. "Tempo triste, com um resto de mormaço nas pedras e fastio de morte nas almas."

Apeteceu-me ler Vitorino Nemésio depois de ter estado no Faial e de ter atravessado o próprio Canal, entre a Horta e a Madalena no Pico, no Cruzeiros das Ilhas. Da esplanada do Peter's Café Sport, onde bebi o mítico gin tónico (irei escrever sobre isso um dia!), pode ver-se, em dias claro o desenho completo do Pico. É das paisagens mais bonitas que já tive oportunidade de ver. 

Por vezes, o mar entre o Faial e o Pico é agitado, em dias de maus tempo, o Cruzeiros das Ilhas dá uns valentes balouços na sua travessia que dura aproximadamente 45 minutos. Tudo isto contribui para o ambiente do romance, que eu coloco no topo da literatura clássica em língua portuguesa, logo ao lado de Eça. 

 

Em Mau Tempo no Canal conta-se os amores e desamores entre Margarida Clark Dulmo e João Garcia, motivados pelas relações complicadas entre as suas famílias. A escrita de Nemésio consegue captar as particularidades dos Açores, tanto na perspectiva cultural e linguística como da sua peculiar natureza. Consegue transcrever e incorporar naquelas ilhas as perturbações do Mundo em redor, em 1917/1919, como os males da peste e da guerra.


Foi o livro em língua portuguesa que mais vezes me fez ir ao dicionário, parece que estava a gozar comigo, e há ali um momento de angustiosa ignorância enquanto se pousa violentamente o livro e se vai procurar o que quer dizer "mormaço". O Dicionário Priberam disse que é um adjectivo para um tempo quente e húmido. 

E realmente hoje o tempo estava assim. Quente e húmido. Estou num período de abstenção literária, de que me irei arrepender mais adiante. Ainda estou suspenso no tempo e aguardo ansiosamente uma nova obsessão. Há fastio de morte nas alma, ou pelo menos na minha.

 

(Tirei esta foto bem cedo pela manhã e prometi ali mesmo que um dia ia lá subir para ver o nascer do sol. Ainda não cumpri a promessa.)

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publicado às 21:58


1 comentário

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De Nina a 28.07.2013 às 20:28

Infelizmente nem tenho tido muito tempo para ler estas férias :/

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