Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Six Degrees of Inner Turbulence

por Volátil, em 21.07.13

As histórias podem ser contadas em várias formas. Livros. Filmes. Conversas. Desenhos. Mas talvez a formato que mais me entusiasma seja a música.


Hoje, parece-me que a música só serve para falar de desgosto amorosos, de amor bem sucedidos, de ânsia por amores bem sucedidos. Com refrão de apenas duas sílabas e ainda menos acordes. (A malta papa isto... que se há-de fazer).

 

Gosto quando a música é conceptual. Quando todo o álbum é construindo com o proposto de contar uma história ou desenvolver um tema. Deste modo todas as faixas ganham uma nova dimensão que vai para além da própria música. Esta complexidade de construção lírica e instrumental está muitas vezes associadas a géneros como o metal progressivo e o rock sinfónico.

 

É precisamente sobre um faixa de uma banda de metal progressivo, os Dream Theater, que me apetece escrever. Esta banda, fundada em 1986, editou um álbum em 2002 com o título de "Six Degrees of Inner Turbulence". É um álbum duplo com diversas particularidades curiosas, principalmente para quem conheces bem o grupo. No disco 2 há apenas uma faixa de 42 minutos que tem o mesmo título do álbum.

 

"Six Degrees of Inner Turbulence", fala sobre doenças mentais. Seis doenças mentais que perturbam seis pessoas diferentes. Em seis das oito partes da faixa é relatada a luta com a doença e a turbulência interior por que cada pessoa passa.

 

I. Overture: É o instrumental de abertura.

 

II. About to Crash (6:50): Fala de uma rapariga que sofre de Doença Bipolar. Relata os episódios de mania, energia e turbilhão de ideias. Aparece também a preocupação do pai pelo seu estado. "She can't stop pacing. She never felt so alive. Her thoughts are racing. Set on overdrive."

 

III. War Inside My Head (12:41): Esta é fácil de adivinhar, Stress pós-traumático. É a história de um soldado que esteva na guerra do Vietname e acredita que ainda a está a viver ou pelo menos a guerra ainda existe dentro da sua cabeça. Uma nota de atenção para o pedal duplo da bateria que simula o som de metrelhadoras. "War inside my head ain't a pretty sight. But I don't want no sympathy. It's happened a thousand times before. It's just a harsh reality"

IV. The Test That Stumped Them All (14:49): Esquizofrenia. "He lives in a world of fiction". Toda a letra descreve os diferentes sintomas, alucinações auditivas, delírios e confusão mental. É particularmente interessante estar patente a dificuldade de encontrar um tratamento adequado a cada caso. "We can't seem to find the answers. He seemed such a clear cut case."

V. Goodnight Kiss (19:52): Trata da Depressão pós-parto. A história de uma mãe que perde o bebé após o parto. Vive dividida entre assumir ela própria a culpa e culpar os médicos. Durante a música pode ouvir-se um choro de bebé e um monitor cardíaco e outros sinais que podem ser interpretados como pesadelos. "I'm so lonely without baby's love. I want you to know I'd die for one more moment."

VI. Solitary Shell (26:09): É o Síndrome de Asperger ou Autismo. Relata o crescimento de alguém que não nutre grande interesse pelo contacto social e vive como numa concha."He seemed no different from the rest (...) He learned to walk and talk on time, but never cared much to be held".

VII. About to Crash Reprise (31:56): Aqui tem lugar o episódio de depressão da Doença Bipolar. É relatada a queda emocional da mania à depressão. "I'm invincible, despair will never find me (...) And when I fall out of the sky, who'll be standing by?"

 

VIII. Losing Time (36:00): Relata demências como Alzheimer. É uma mulher que sobre de episódios de amnésia e  não reconhece as caras mais familiares, o que leva toda a gente a afastar-se. O grande destaque vai para a perda de noção do tempo em que se encontra e para as perturbações de personalidade que provocam lesões metais e físicas graves. "She dresses in black everyday. She keeps her hair simple and plain. She never wears makeup. But no one would care if she did anyway".

 

O Grand Finale (39:00) deixa um apelo a todos para que tenham maior compreensão e atenção pelas pessoas que sofrem destes seis graus de perturbação interior e outros que existam, na perspectiva de serem melhor aceites na sociedade.


Hope in the face of our human distress
Helps us to understand the turbulence deep inside
That takes hold of our lives
Shame and disgrace over mental unrest
Keeps us from saving those we love
The grace within our hearts

 


É uma faixa extraordinária e cheia de pequenos pormenores na letra e na música que chama a atenção para um tema muito importante e delicado que nunca vi tratado desta forma.
Acho que merece alguma atenção mesmo de quem não é adepto do género musical.

 

 

 

Post Scriptum: Os Dream Theater têm concerto agendado a 15 de Janeiro de 2014, no Coliseu do Porto. Yeah! \m/

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:39