Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



2014 podia ter sido pior.

por Volátil, em 31.12.14

Há algum tempo que os anos me parecem todos iguais. As memórias são obviamente diferentes porque cada ano é, evidentemente, irrepetível. Refiro-me ao que conta, aquilo que transportamos de um ano para o outro, aquilo que construímos nesse período e que serve de arsenal para enfrentar o ano seguinte. Parece-me quase sempre o mesmo.

Estou a escrever isto à mesa da sala fria da casa onde moro sozinho. Tive de trabalhar até mais tarde. A lareira, que nunca acendi, continua apagada. Vou fazer qualquer coisa para o jantar. Tenho no frigorifico uma garrafa de espumante Terras do Demos. Escolhi-a no dia em que completei um ano a morar nesta terra do Demo, pareceu-me apropriado.

Escolhi ficar aqui só porque preciso de pensar e para pensar é preciso estar sozinho. A solidão, não no sentido negro e depressivo do termo, ensina a dar valor à companhia dos outros e ensina sobretudo a reflectir. 

Reflectir sobre a vida para mim é um ensaio em que me transporto para o exterior de mim próprio e fico a ver o filme dos meus dias como quem analisa um mapa estendido na mesa. A imagem é quase sempre muito turva como que um nevoeiro frio pairasse sobre as extremidades desse mapa. Sinto ansiedade, vergonha e medo quase tão intensamente como quando vivi aqueles momentos. Que fazer com eles? O que me ensinaram? Normalmente procuro com isto tentar dissipar o nevoeiro de se mapa e, com grande dificuldade, tentar marcar o caminho futuro.
A vida deveria ser simples como um dia grama de fluxo. Seria tão mais simples, marcar o "Você está aqui!" para ir para "Ali" tem que aplicar o "Método x", se reúne as condições para completar o "Método x" siga por "Ali", se não reúne as condições faça "Aquilo" até conseguir.
É com base nestes algoritmos falaciosos, mas os melhores que tenho, que tento orientar o meu caminho no mapa. Se tentasse tirar uma fotografia ao meu pensamento o que apareceria seria um emaranhado de linhas meio desfocado e este fluxo marcado a tinta meio trémula. 

Estar sozinho é importante porque quando estamos com alguém estamos porque gostamos e não porque precisamos. Acho isso uma armadura fundamental para enfrentar os novos anos. Foi o que sempre me salvou da depressão, quase na linha, permitiu separar-me de tudo, aguentar sozinho, e depois voltar mais livre e de cicatrizes brancas. 

Vou abrir um garrafa e saudar 2015 imaginando onde estarei a abrir a garrafa a 2016, neste mesmo dia, daqui a um ano. Se ainda estiver aqui não pode ser mau... mas também não será bom. Significa apenas que o algoritmo falhou e o nevoeiro do mapa é demasiado espesso para me aventurar às cegas. Não será um ano excelente nem um ano mau. Será igual. Mas, apenas os corpos sem alma é que tendem ficar na mesma.

B6MWpA1CMAAXd6T.jpg

 Feliz Ano Novo! 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:18


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Sofia a 04.01.2015 às 22:42

Feliz Ano Novo!!

Comentar post